Viagem aos seios de Duilia – o filme

É uma história centrada sobre solidão e sensação de inutilidade, sentimentos que acompanham o senhor Zé Maria após a aposentadoria. O filme mostra suas tentativas fracassadas de aderir à nova vida. Ele volta-se então ao passado, inicialmente em sonho e depois na realidade. O longo caminho até sua terra e ao primeiro amor (o único) não leva a nada, e só resta o caminho inverso.   

Este filme – baseado em um conto de Aníbal Machado apoia-se em três pontos: (i) o ambiente; (ii) a história propriamente dita, e (iii) a solidão/desilusão (uma fluindo da outra)

– O ambiente: inicialmente é o Rio de Janeiro dos anos ´60, visto do seu lado modernista: arranha-céus, fachadas em alumínio e vidro, multidões e automóveis – aquilo que chamava-se progresso. Mas ainda é a época do bonde aberto, do terno azul-marinho ou branco, homens envergando fino bigode, chapéu e lenço no bolsinho do paletó.  Eram tempos simples, fuscas nas ruas e escritórios apinhados de funcionários manuseando pastas, papelada e carimbos.

A repartição do Ministério, onde Zé Maria era chefe

No decorrer do filme deixa-se a grande cidade e trilham-se caminhos poeirentos do interior mineiro

– A história: Zé Maria, chefe de repartição em um Ministério qualquer se aposenta depois de 36 anos de trabalho. É um solteirão de 54 anos, que de pijama e chinelos vemos numa casa silenciosa, entre móveis pesados e escuros, sofás de espaldar alto, cristaleiras e cadeiras de palhinha. Dispõe de uma governanta, um pouco invasiva mas que cuida dele como fosse uma criança desajeitada. Zé Maria prepara-se para viver sua liberdade; passeia pela cidade, junta-se a um antigo subordinado, um Dom Juan barato que o convida para uma noitada em uma boate com duas jovens, aventura que se revela decepcionante. O personagem começa a se cansar da sua ilusória liberdade, que logo se transforma em tédio e em crescente sensação de solidão. E são esses os sentimentos que fazem-no reviver o passado, desejar voltar à terra natal e pisar suas próprias pegadas, que há 40 anos se dirigiam à casa de Duilia.  

–  Solidão/desilusão: à despedida calorosa de seus colegas e subordinados – “Ah, você é que feliz – vida nova!” – seguem dias de esperançosa expectativa sobre o que a nova liberdade irá acrescentar à sua vida. Inicia a passear por aí, pelo centro da cidade, mas percebe-se um fundo de inquietação; Zé Maria não é um flaneur, aquele personagem de Walter Benjamin, que circula pelo prazer de se misturar à multidão urbana, examinando-a com olhar crítico, exercendo o “fazer nada” sem sentimento de culpa. O filme mostra sua inquietação, o seu não sentir-se à vontade; toma um, dois cafezinhos, compra o jornal, como a dar um objetivo ao seu caminhar. Os 36 anos de trabalho o desacostumaram a si mesmo.

Devagar ele procura se adaptar à nova vida; iniciou com omitir seu chapéu de feltro, depois compra um terno claro – tem pressa para estrear esse símbolo de uma nova vida e pesa-lhe ter que esperar até sábado. Um dia liga para Délia, jovem funcionária da repartição, ele que costumava segui-la com os olhos no serviço, mas sem coragem de lhe falar corta a comunicação. A noitada na boate, proporcionada pelo seu subordinado que hoje o trata por você, ressalta sua inaptidão à vida livre que imaginava – as duas moças que o Don Juan trouxe o ignoraram todo o tempo, e o palavreado vulgar dos jovens: “tá de fechar o comércio – vem espalhar comigo – vamos nos arrancar – deixou a mulher de tanga”, contrasta com o antiquado, correto e elegante do Zé Maria, aprofundando o fosso que se forma entre eles.

Se Zé Maria tem 54 anos, nasceu por volta de 1910; as mudanças no Brasil a partir do final dos anos ´40 – especialmente os ´50 com os governos Vargas e Juscelino – foram enormes. A modernização, apagou costumes, valores e linguagem: dizer cabaré é “old-fashion”, hoje é boate, night club, toma-se whisky, fuma-se Malboro, carro é “carango” dinheiro é “gaita, grana”.

A decepção que Zé Maria experimenta seguidamente desagua em irritação, bem notada pela sua governanta. Esperançoso, resolve rever os amigos do Ministério – o vemos subir a escadaria com passo rápido e adentrar a grande sala que era sua. A princípio chovem declarações de amizade e carinho – “esqueceu dos amigos; até que enfim apareceu; deixou saudades; como vai essa força?”, mas aos poucos esses lugares comuns foram se apagando, com cada um retornando à sua papelada, sua máquina de escrever, suas preocupações. Zé Maria ansiava por rever a Délia; ela chega, apertam-se as mãos, mas logo ela corta no meio sua frase – talvez ensaiada há tempos – apressada por ter que ver o chefe.

Ao seu “bem, vou indo”, umas poucas vozes respondem: “até logo; volte sempre”, e lento foi seu descer a grande escadaria que há minutos tinha subido com tanta esperança. 

Dia seguinte telefonema da Délia – novamente à esperança sucede a decepção: não foi para vê-lo, mas para comunicar a morte de um funcionário do Ministério. No velório, do morto pouco lhe importa – importou mais vir a saber que Délia relacionava-se com o Dom Juan barato da infeliz noitada. De degrau em degrau Zé Maria desce a escada das decepções, último degrau a conscientização, ali no velório, de sua própria finitude. A fragmentação final do seu mundo lhe indica o passado como único caminho de salvação – sua terra natal e um nome há décadas esquecido: Duilia.   

No decorrer do filme flashbacks em forma de sonho o mostram jovem com Duília – no último ele se vê percorrendo as ruas de sua pequena Pouso Triste – dar vida a esse sonho é o único caminho que resta a Zé Maria.

O sonho do velho Zé Maria: o jovem Zé Maria, a casa de Duilia e a grande gameleira

De terno e gravata, o vemos tomando um Whisky no vagão restaurante do trem Rio – Belo Horizonte. Visões de Duília retornam e se projetam na janela do trem que corre na noite. Até a próxima etapa – Curvelo – ainda reconhecemos o Zé Maria em sua antiquada elegância, mas daí para frente tudo muda – Pouso Triste está ao fim de dois dias de longa trilha só praticável em lombo de burro; um guia é conseguido e lá vão três tranquilos e fortes burros carregando Zé Maria, o guia e as malas. Aos poucos ele vai se desvestindo – literalmente, em camisa branca e bonezinho – do casulo que regia sua vida e passa a se identificar com a paisagem de sua terra, o interior montanhoso de Minas Gerais, as grandes perspectivas de mata, as vastas planícies e os valores simples de seu guia. A travessia do rio em pequena balsa parece a passagem de uma fronteira entre o presente e o passado. A figura do barqueiro que a movimenta apenas com seu esforço personifica a dura realidade da vida do campo.

Seguem viagem – “só tem uma dormida no Arraial do Candinho” – o mesmo que o acolheu há 40 anos quando de sua partida, ali mesmo o sono de Zé Maria é rompido pelo seu sonho recorrente: a despedida e a visão dos seios de Duília à luz da lua, talvez sua maneira de prometer que o esperaria. Curto é o caminho no dia seguinte, e logo a trilha transforma-se na única rua de Pouso Triste.

O sonho da despedida: Duilia, superposta ao luar

Perguntas ansiosas feitas à gentil dona da pensão: ”  – “e fulano, e sicrano? e a pergunta verdadeiramente importante… e Duília? – ah, ela está bem… sim, continua morando no casarão da gameleira.

Para o encontro – reencontro – de sua vida ele retorna ao terno e gravata; firmes são seus passos, mas incerto é seu bater à porta do casarão. Pedem-lhe para esperar; seus olhos circulam pela saleta como se cada móvel, cada quadro fosse parte de Duília. Ela – uma senhora de 50 anos – aparece e de início não o reconhece. Mas logo, em menos de seis lentíssimos minutos Zé Maria vê desmoronarem suas esperanças – rosto sério ela o recrimina por ter voltado tarde demais, já transcorrera sua simples vida: viúva, três filhos e uma neta (a foto sobre a cristaleira).

De repente Zé Maria levanta-se e foge: foi como se um raio iluminasse sua mente: seu lugar na vida devia ter sido aquele, no casarão da gameleira, ao lado da igrejinha de Pouso Triste, pai dos três filhos e avô daquela neta tão parecida com a Duília de 40 anos atrás. Os restantes dois minutos do filme são o inverso da viagem de ida: a única rua de Pouso Triste, a trilha, a travessia do rio (a fronteira), o asfalto, as árvores da Avenida Rio Branco: Zé Maria voltando ao restante de sua vida.

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