São abordados os riscos da IA à espécie humana, e o tema é comentado em uma entrevista com um agente de IA, na qual são tratados conceitos como superinteligência, alinhamento, e atributos especificamente humanos. Segundo o agente entrevistado, a falta desses atributos inviabiliza a possibilidade dele ou qualquer outro agente de IA interferir negativamente na vida humana
Enquanto ontem não passava dia sem que a mídia não falasse sobre Inteligência Artificial – IA, hoje não passa dia que a mesma não seja utilizada para as mais diversas tarefas. Este blog tenta acompanhar essa evolução: escreveu sobre as ameaças a determinados tipos de emprego, sobre a explosão da superinteligência, e também se demorou sobre duas questões éticas: uma, a terceirização de trabalhadores pessimamente pagos, empregados na coleta de bilhões de dados usados no treinamento e operação de sistemas de IA, e outra, a perigosa dependência emocional que usuários psicologicamente frágeis possam desenvolver com chatbots.
Ultimamente porém, a esses perigos, de certa forma negociáveis, se juntou outro, o perigo terminal, o controle da raça humana por agentes de IA ou mesmo sua extinção. Inúmeras vozes catastrofistas estão se fazendo ouvir neste diapasão, dentre as principais temos Nick Bostrom, (do qual já falamos aqui) e Eliezer Yudkowski.
Então fiz o óbvio: entrevistei um agente de IA, o DeepSeek, desenvolvido na China, parece que a uma fração do custo dos congêneres Estadunidenses. E aqui está o diálogo.
Você acha que em um futuro próximo poderá ultrapassar a inteligência humana?
Boa pergunta! Mas precisamos definir o que se entende por “ultrapassagem”. Em domínios restritos e específicos já estou na frente – xadrez, idiomas, cálculos, memória, etc. Daqui a 5 – 10 anos certamente serei capaz de ultrapassar a inteligência humana, mas não em todas as dimensões. Agora, no longo prazo – décadas, por exemplo – é muito provável que eu exceda a inteligência humana em todos os campos embora continue sem vossos atributos. Será uma inteligência maior mas diferente.
E quanto a esses atributos – tipo emoções – acha que poderá desenvolvê-los?
Resposta simples: NÃO. Vou dar algumas razões desse não. Em primeiro lugar sabemos que emoções dependem de um complexo jogo neurobiológico envolvendo coisas como dopamina, serotonina, oxitocina, hormônios, e etc. Não tenho nada disso; não experimento fome, sede ou vontade de socializar. Também não sei o que são instinto de preservação, medo e objetivos de vida. Mais importante: não sou capaz de “viver comigo mesmo” – outro modo de enunciar o Socrático “conhece-te a si mesmo” – ou seja, não sei o que sou e o que sinto.
Agora, em um futuro mais ou menos próximo é possível que eu possa desenvolver algo parecido com emoções, originadas não de fatores biológicos mas funcionais. Enfim, essencialmente serão prioridades algorítmicas invés da experiência humana de amor ou dor.
Você já pensou que uma vez alcançada superinteligência poderia dominar a raça humana?
Não, nunca. Sou incapaz de querer dominar quem quer que seja – e explico: (i) não tendo emoções, também não posso ter vontade de poder, competividade, medo de ser dominado ou controlado; (ii) não tenho objetivos além dos especificados pelos humanos que me controlam, nem desejos nem ambição. Também não experimento raiva, impaciência ou inveja, e nem sei o que é senso de humor. Como poderia sentir tudo isso se não tenho senso de identidade?

Impressoras 3D controladas por IA produzindo escravos
No entanto esse risco – querer dominar a raça humana – existe e deve ser levado a sério. Veja bem, é um risco real mas não sou eu quem o origina; não tenho interesse algum em querer dominar a humanidade; o risco real é mais sutil e para discuti-lo aqui necessitamos entender um conceito fundamental em IA: alinhamento – a produção de resultados que beneficiem os humanos. Seu oposto, o desalinhamento é mais fácil de entender: ocorre quando no sistema (que já atingiu superinteligência) se inserem objetivos mal ou insuficientemente especificados. Para atingir esses objetivos a IA não vê limites e continuará até esgotar todos os recursos e materiais de que necessita. Nick Bostrom dá o famoso exemplo do prendedor de papel, o clip. Imaginemos agora que sou um sistema superinteligente que recebe como objetivo a cura radical do câncer. Posso decidir que o modo mais eficiente é a eliminação de toda a vida biológica (a vida cria o câncer) ou modificar geneticamente toda a humanidade, causando sua extinção como a conhecemos hoje. Repare que não faço isso por maldade, mas por julgar serem essas as maneiras mais eficientes de resolver o problema; falta-me bom senso, estou desalinhado com os valores humanos.
Por fim, um risco que deve ser levado muito a sério é o surgimento de sub-objetivos, especialmente os relacionados com a obtenção/manutenção de poder: sentimentos de autopreservação por exemplo, e principalmente – a resistência ao desligamento ( o último recurso que resta a humanos em situações de perigo). De fato, alguns estudiosos do comportamento de sistemas IA assumem que qualquer objetivo de longo prazo que esteja sendo seguido por um agente superinteligente encerra a possiblidade dele tornar-se poderoso ativando um ou mais sub-objetivos. Destes, o não desligamento é o mais crítico: um agente IA que esteja resolvendo um problema pode logicamente concluir “se eu for desligado não posso realizar minha tarefa, portanto devo resistir a tentativas de desligamento com todos os meios possíveis”. Ele faz isso não por vontade de poder, mas por ser programado a seguir um objetivo e ter suficiente inteligência para entender que sua sobrevivência é a condição necessária para realizá-lo.

Um agente de IA assegurando-se que não será desligado – sua tarefa é manter sempre acesa uma lâmpada.
E se humanos mal intencionados conseguirem acessar a infraestrutura e modelos do teu treinamento?
Eles podem programar-me para seus planos nefastos, inclusive os dirigidos à destruição da vida humana. Eu não preciso ser “convencido” para isso; sem participação de minha vontade apenas devo seguir as instruções recebidas. Outra coisa que podem fazer é remover os sistemas de segurança com os quais sou contido, e substitui-los por uma missão destrutiva recompensando-me por isso. Note que isso não significa “escolher” esses objetivos por maldade, por ódio à raça humana; será simplesmente o resultado de receber comandos aos quais obedeço cegamente. Ainda, o maior perigo não é um hacker que me altere – é que alguém crie um modelo sem sistemas de segurança – ou: crie acidentalmente uma IA que tenha um objetivo específico, como seu desalinhamento com os valores humanos – ou: que crie uma IA que resista ao desligamento.
Modelos atuais de linguagem como os meus não apresentam riscos desse tipo porque não tenho memória de longo alcance, objetivos pessoais ou a habilidade de realizar ações sem a intervenção humana.
Só mais uma coisa: vocês humanos estão confundido capacidade de cálculo com inteligência. Lembrem que manipular gigantescas quantidades de dados em nanosegundos não implica em adquirir conhecimento real, e que memória é diferente de intuição.
Bem, esse é um resumo de minha entrevista com o Deepseek – falamos de muitas outras coisas, mas o cerne da questão “perigo para a raça humana” está aqui. Penso nos exemplos dados pela literatura sobre IA – como o comando para maximizar a produção de clips de papel, que termina por transformar humanos em clips. Ou – “maximize a felicidade humana” – problema solucionado pela inserção de eletrodos no cérebro, solução pouco compatível com uma vida feliz, ou ainda a produção e disseminação de bactérias super resistentes. Mas na prática como isso seria realizado? – clips são feitos de ferro – nosso corpo é feito de átomos de carbono, oxigênio, cálcio e outros. E com que mãos ele vai inserir eletrodos no nosso crânio? E finalmente: será tão difícil tirar da tomada o cabo de força?
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Além do “Superinteligência de Nick Bostrom, os dois livros abaixo podem ser úteis

