Este conto de Yasunari Kawabata trata de um velho senhor, um pinheiro seco e o falcão que nele uma vez pousou. Por meio desses símbolos o texto fala da interação homem-natureza, finitude e filosofia Zen-budista.
Yasunari Kawabata é um dos mais importantes escritores japoneses. Hermético, poético, lírico, e sensual é considerado uma ponte entre o oriente e o ocidente, mantendo ambas as características: imerso no modo de pensar japonês e reconhecido com o prêmio Nobel de 1968, o que o torna universal. O conto aqui traduzido “Voz de bambu, flores de pêssego” é seu penúltimo trabalho. Pelo que sei nunca tinha sido traduzido em nossa língua Relativamente longo pelos padrões deste blog, pensei em dividi-lo em dois posts
A voz do bambu, as flores de pêssego… quando ele começou a pensar que estivessem dentro de si? Chegou um ponto em que não se limitava a ouvir a voz do bambu e ver as flores de pêssego, agora via a voz do bambu e ouvia as flores de pêssego.
Às vezes, apurando o ouvido para a voz do bambu acontecia-lhe ouvir também a voz dos pinheiros, que no entanto naquele lugar não se devia ouvir. Olhando as flores de pêssego parecia-lhe ver também as flores de ameixa, que naquele momento não poderiam ter desabrochado. São coisas que acontecem mais frequentemente do que se pensa, mas para Miyagawa Hisao vieram com a velhice.

As imagens título do conto: bambus e cerejeiras em flôr
Miyagawa lembrava-se como se fosse hoje, que duas primaveras passadas tinha visto o gavião pousado sobre a colina atrás da casa.
Uma cadeia contínua de baixas montanhas estendia-se até atrás de sua casa e ali terminava com uma protuberância similar a uma longa gota de cera. Aquela protuberância era uma pequena colina. Da rocha cor de chumbo que emergia junto à sua base vicejavam várias espécies de samambaia. Mas nem samambaias nem árvores que capturassem o olhar cresciam ao longo da encosta, que um intricado emaranhado de vegetação atapetava com uma íngreme cobertura verde. No alto da colina erguia-se um grande pinheiro seco.
Além das agulhas amarelecidas, caídas há muitos anos, quase todos os ramos menores tinham se destacado; restavam apenas o tronco e os ramos mais grossos, em muitos casos quebrados nas extremidades. Assim, o seco esqueleto do pinheiro destacava-se como uma afiada ponta.
Quando o viu, o falcão estava pousado no topo do pinheiro. A Miyagawa faltou a respiração, do peito sentiu sair com violência um grito abafado. Nunca imaginara que um falcão pudesse chegar até aquelas colinas. Era um fato inexplicável. No entanto tratava-se mesmo de um falcão. As dimensões, a atitude de pássaro predador eram típicas de falcão.
Encimado pelo pássaro, o imponente pinheiro seco parecia menor do que o habitual. O falcão mantinha-se imóvel, o peito soberbo e o olhar reto diante de si. Miyagawa, que o olhava de um nível inferior sentiu toda a sua força.
Em volta difundia-se a morna luz de um por do sol de primavera. No céu cor de pêssego, desfocado por uma leve névoa, ressaltava como uma lâmina negra o pinheiro seco sobre o qual pousava o falcão. Era um objeto materializado como por encantamento, privado de afinidade ou laços com seu entorno.
Na indefinição daquela semiobscuridade parecia impossível que o falcão tivesse encontrado o caminho para chegar até ali. Ou que pudesse achar um para voar de volta. Não, o caminho do falcão não estava no céu, tinha-se materializado ali para ele. Myagawa o contemplava com os olhos luzentes de maravilha.
Era como se no centro de um fogo incontrolado de repente se tivesse aberto uma grande flor de lótus branca. Não que aquele pálido crepúsculo de primavera pudesse evocar um incêndio, nem o gavião semelhava a um lótus branco. Mas aquele pássaro de atitude orgulhosa, pousado sobre o seco pinheiro emanava uma calma imensurável, a mesma calma de uma flor de lótus sitiada pelas chamas. Uma solitária flor de lótus.
Quando aquietado o estupor que lhe interrompera a respiração, em seu coração começou a tomar forma a ideia que o aparecimento do falcão fosse de bom auspício. Uma emoção exultante tomou conta de si.
Naquela cidadezinha da região costeira de Tokyo nunca tinham sido vistos falcões, nem se ouviu que tivessem sido. A ideia de encontrar um seria considerada bizarra por qualquer pessoa. No entanto aquele que ele estava vendo, pousado sobre o pinheiro seco sobre a colina atrás da casa era um falcão.
Quem sabe por que tinha vindo. Era aquele seu destino? Ou tinha-se perdido? Talvez tenha chegado ali por acaso. Mas por que, uma vez chegado, escolhera pousar exatamente no cimo do pinheiro seco, sobre a colina atrás da casa de Miyagawa Hisao?
Não podia ter sido por acidente, pensava. Devia haver uma razão. Sentiu que o falcão tinha vindo trazer uma mensagem para ele, Miyagawa.
Foi sorte, refletia, que aquele velho pinheiro não fora abatido. Talvez o falcão tenha vindo exatamente por aquela grande árvore no topo da colina. Talvez lá pousou por que estava seca. Se lá não estivesse, provavelmente em toda sua vida não teria tido, nem por um instante, um falcão sobre a colina atrás de casa.
Estava contente por não tê-lo abatido, considerava agora, enquanto no passado pelo menos cem vezes pensou que era necessário eliminá-lo. Durante anos, o lento e inexorável decaimento daquele pinheiro que se elevava como um símbolo da casa, quase uma divindade tutelar, tinha entristecido seu olhar.

Dia de neve (Kaii Higashiyama)
A árvore era também vista desde os trilhos da ferrovia. Não apenas Miyagawa mas também seus familiares, cada vez que subiam ou desciam do trem dirigiam seu olhar ao pinheiro com um gesto automático que se tornara habitual. Por fim ninguém mais sentia a necessidade de comentar que dos trilhos tinha visto o pinheiro. Mas houve um tempo em que o fato de conseguir ver daquela distância a árvore da casa tinha despertado fortes emoções em todos. Retornar de fora, descer do trem e avistar o seu próprio pinheiro às vezes dava um alívio instantâneo, outras vezes apertava com a força de uma morsa.
Miyagawa não tinha condições de calcular a idade da árvore simplesmente a partir de seu aspecto, mas parecia-lhe que desde que tinha se transferido naquela casa, com quarenta nove anos, até seis ou sete anos atrás, quando completara setenta, o pinheiro tinha se mantido virtualmente imutado. Devia ter pelo menos cento e cinquenta anos.
Também o carvalho e o canforo que no fundo do terreno marcavam o limite com a moradia de dois andares dos vizinhos, e a murta que abria seus galhos no centro do jardim eram bastante velhos, mas certamente não quanto aquele pinheiro. E nem sobre a colina havia outras árvores que se distinguissem por similar imponência. Como se explicava o fato de haver um único pinheiro tão grande? Como foi que apenas aquele tinha sobrevivido, quando todos os da mesma idade tinham morrido?
Devia ter pelo menos o dobro de seus anos. <<E no entanto viverá mais do que eu>> pensava Miyagawa nos primeiros tempos em que abrigava-se sob sua sombra. Desde jovem, quando caminhando por montes e bosques lhe acontecia achar-se ao pé de uma antiga árvore, do seu aspecto conseguia perceber sua idade, mas invés de fazer-lhe sentir a brevidade da vida tal experiência o fazia esquecer sua mortalidade, ao sentir sua vida fluir junto com as vidas das imperturbáveis árvores, firmemente enraizadas na terra.
mas esta invés de lhe mostrar com mais clareza a fugacidade da vida humana acabava ao contrário por enfraquecer sua visão interna, como se sua vida de alguma maneira viesse a se fundir com a vida daquela antiga árvore, que rija e imperturbável afundava as raízes na terra.
Chegou a pensar que o pinheiro sobre a colina estivesse dentro de si. Ao longo da íngreme encosta não havia caminhos. Portanto não havia maneira de alcançar a árvore, que por isso nunca pôde ser podada. Na falta de todos esses cuidados que normalmente se dispensam a uma planta de jardim, o pinheiro crescera desregradamente. Se suas folhas não pareciam densas e desordenadas era somente devido à idade. Mas nenhum tufão conseguia agitar-lhe os galhos, nem mesmo os menores.
Até as agulhas pareciam coladas. Um dia da alta janelinha do banheiro Miyagawa olhava as árvores e as plantas agitadas pelo furacão. Aquela era a única janela da qual se podia ver o jardim de trás quando todas as venezianas da casa estavam fechadas. Estava ali em pé, no banheiro, para assegurar-se que o pinheiro não estivesse em perigo. Violentas rajadas de chuva batiam no vidro da janela traçando linhas líquidas em diagonal. No jardim as grandes folhas das árvores turbilhoavam ao vento. Mas das agulhas do pinheiro se diria que nada as poderia fazer cair.
Ou melhor, se realmente caiam da janela do banheiro não era possível ver, mas era certo que não se via uma só agulha voando com o vento. Em comparação com o furioso agitar que sacudia os galhos e derrubava as folhas das árvores ao longo das encostas da colina, a quieta oscilação da copa da pinheiro colocava quase em dúvida que se tratasse do mesmo furacão.
De repente, ele teve a visão de uma silenciosa chuva de alvas pétalas de crisântemo. Uma noiva vestida de branco caminhava por um corredor de hotel apertando a si um buquê de brancos crisântemos. Certamente estava dirigindo-se à sala onde a cerimônia ou o banquete teria lugar. Intercedia, seguida pela longa cauda do vestido. Dos crisântemos do buquê pétalas brancas se destacavam e espalhavam ao redor. Atrás da noiva, uma dama de honra se curvava a cada passo para recolher as pétalas sobre o tapete verde-claro. Fazia menção de se levantar e logo tornava a curvar-se.

Simplesmente, a noiva
Miyagawa tinha deparado com essa cena ao entrar no corredor. Os movimentos da jovem que recolhia as pétalas esparsas no solo eram leves e silenciosos, como o voltejar no ar das pétalas mesmas. Era caso de perguntar-se se a noiva tinha percebido que o buquê nas suas mãos estava se desfazendo. Não parecia lhe dar atenção.
A Miyagawa pareceu uma desconsiderada negligência do florista ter formado um buquê de noiva com flores que perdiam pétalas, mas no momento em que formulava essa consideração a cena lhe apareceu como uma bela e trágica coreografia . As brancas pétalas de crisântemo vistas voltejar silenciosamente naquela tempestade muitos anos depois, eram as pétalas perdidas por aquela noiva.
Continua em breve
