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O intelectual profissional

Woody Allen é um ator e diretor de cinema americano extremamente prolífico, que participou de 63 filmes dos quais 50 como diretor e roteirista em 53. Isso em 58 anos de carreira.

Se pensarmos que a energia no universo é constante (em espaços de tempo não demasiadamente longos) e talvez a inteligência também o seja, parece lógico que quantidade e qualidade se relacionem de modo inverso, e tal acontece com os filmes de Woody Allen. Além disso são mais ou menos parecidos – claro, não assisti todos mas os principais sim. Todos os filmes se passam em New York (eu sei, nem todos, mas os principais, enfim) e muitos são em branco e preto, o que soa mais europeu e mais cult. Os atores sempre personificam intelectuais: professores universitários, escritores, psiquiatras, artistas, e os ambientes são terrivelmente radical chique. Tem muitas festas em que só toma-se vinho e se discute temas inteligentes. Nomes são atirados para lá e para cá: Freud, Kant, Virginia Woolf ou outros mais difíceis de pronunciar, como Kierkegaard ou Wittengstein. Invariavelmente os personagens vivem torturadas histórias de amor, nunca triviais mas interessantes e cheias de sexo temperado por longas discussões existenciais. Vestem-se de modo forçadamente anticonvencional: paletós de tweed calças de veludo; em um dos filmes duas personagens “se conheceram em Machu Picchu”, o máximo da originalidade chique, não é? 

Na verdade o ponto não é se os filmes de Woody Allen são bons ou ruins; o ponto é o endeusamento dos ambientes intelectuais e a ilusão de que seus habitantes são a coisa mais interessante da face da terra.

Annie Hall e Manhattan: dois dos melhores filmes de Woody Allen

Será que essas pessoas, poços de conhecimento e cultura são tão admiráveis assim? Em professores universitários não vejo nada demais ser do tipo sabichão. Afinal é sua profissão entender muito de uma coisa. Essa superioridade é mais cultuada nos praticantes das ciências humanas (ciências humanas é uma contradição em termos, mas o que fazer se é assim que são chamadas), pois pensam estar mais próximos das grandes questões: onde vamos, por que vamos, quando vamos, etc. Os sociólogos, psicólogos, e assemelhados pensam possuir as respostas a tais questões, mas não percebem que seu pacotinho de conhecimentos é apenas uma caixa de ferramentas, igual à do mecânico que conserta seu carro. Diferentemente, o intelectual das “ciências duras” – o físico, o engenheiro, o médico, o bioquímico – é um pouco mais humilde pois seu conhecimento se choca e é bloqueado pelo desconhecido. O físico se defronta com perguntas ainda irrespondíveis: qual a natureza da “cola” que mantém unidos os prótons e os nêutrons? – como se comporta o átomo na vizinhança de um buraco negro? – e tantos outros mistérios da natureza. A origem do câncer ainda apresenta pontos obscuros ao médico e os matemáticos não estão certos de como no futuro controlar a IA. Tudo isso lhes impõe algum limite, ou deveria.

Como é repousante um bom papo com quem não é profissional ou exibicionista do intelecto, mas que simplesmente se interessa pelas coisas – um diletante inteligente enfim. Prefiro uma piscina grande e rasa do que uma pequena e funda.

Gênios execráveis

A vitória do filme “Ainda estou aqui” ainda ecoa e a merecida conquista da estatueta acendeu um verdadeiro caleidoscópio de opiniões, umas de natureza estética e outras ideológica. Fiel às intenções iniciais deste blog não vai ser tomado partido, apenas serão relatados fatos e acontecimentos.

Ainda não assisti ao filme, mas com tais diretor e atriz não pode ser ruim; aqui e ali leem-se opiniões muito favoráveis se ficarmos apenas no critério artístico e estético. A questão maior é a político-ideológica, com lados que consideram que acertadamente o filme reforça a urgência de punir crimes cometidos há meio século, e outros que se queixam do uso político de uma obra, da qual porém reconhecem alguma qualidade.

A realidade e sua recriação

Correto seria limitar-nos à análise do mérito artístico do “Ainda …”, mas é inevitável que nessa era de polarização as ideologias interfiram na análise puramente artística. Essas manifestações paroquiais sobre o filme são longínquas parentes de uma outra questão: como separar a obra do autor? Na literatura, e não só, também na música, ciência e filosofia, temos muitos exemplos dessa questão. O mais ruidoso é o do francês Louis-Ferdinand Celine, o autor de “Viagem ao fim da noite”, que anos depois produziu obras claramente inspiradas por antissemitismo e racismo. Apoiou a invasão da França pelos nazistas e desejava a completa aniquilação da população judia. Apesar de tudo “Viagem” é considerada uma obra-prima, que porém eu abandonei perto da página 80 ou 90 devido à antipatia que o personagem principal me inspirava. No caso, meu humilde juízo sobre obra e autor coincidiu      

Há tantos outros exemplos: Martin Heiddeger filosofo alemão dos mais importantes do século XX. Inscrito ao partido nazista, quando reitor da Universidade de Friburgo procedeu à expulsão de todos os professores judeus e deu sua assinatura a um documento em que os professores universitários da Alemanha declaravam fidelidade a Hitler e ao partido nazista. Lembro também do escritor norueguês Knut Hamsun prêmio Nobel 1920, que comemorou a conquista de seu país pelos nazistas (a ocupação durou 4 anos), escreveu um obituário para a morte de Hitler e doou sua medalha do Nobel para Goebbels, o sinistro ministro da propaganda do partido nazista. Logo depois da guerra os livros de Hamsun foram queimados ou jogados fora; no entanto, a memória humana é curta e hoje sua obra é republicada – apesar de desagradar a muitos é impossível negar seu valor como artista ou sua influência na geração de artistas que o sucedeu

Passando para a música encontramos Wagner, com sua obsessão pela mitologia nórdico-germânica. Fortemente antissemita, escreveu panfletos em que afirmava que os judeus eram inaptos para as artes. Arrogante, vaidoso e ostentador, estava sempre precisando de dinheiro e ainda por cima era contumaz caloteiro. Sua bombástica música conquistou Hitler, outro também obcecado pelas lendas nórdicas.  

Esses são exemplos extremos; os leves incluem escritores que utilizam-se do que sabem sobre os outros para compor suas tramas, dos que com a fama se tornam burocratas de sua arte que entre viagem palestras e seminários sufoca e morre, e dos que apoiam linhas políticas suspeitas para obter vantagem pessoal.

Artistas são pessoas como nós, e se fizermos exceção desses casos extremos, assim devem ser considerados. Mas é normal querermos uma ligação afetiva com alguém de cuja arte gostamos. Pensemos em Tchecov, um médico humano, tocado pela pobreza de seus pacientes, em Graciliano Ramos com suas preocupações sociais e Jorge Amado, que se define simplesmente como “apenas um baiano romântico e sensual”.   

Consumir o mundo

Outro dia encontrei um antigo colega, que não via há tempos. Como é de praxe, mesmo que não haja o mínimo interesse trocam-se os “E aí, como vai?” O amigo disse que estava voltando de viagem “viajo bastante, que meus filhos estão estudando em XXXXXXX e de vez em quando os visito”.

– A que bom, legal isso

– Ah, daí aproveito para ver mais lugares, não fico só em XXXXXXX. Veja só, passei por – deixa ver – umas sete cidades dessa vez. E fui para a Espanha também: Barcelona e mais uma cidadezinha pequena da qual não lembro o nome

– Não chegou até Madrid?

– Já conheço

– Mas quanto tempo viajou dessa vez?

– Quinze dias inteiros, sem contar os dois dias da chegada e partida.

– Rápido, né? E viu muita coisa nesses dias?

– Ah sim. Os monumentos principais, né? – e depois vou para a cidade seguinte para aproveitar ao máximo. Hoje com celular dá pra fotografar e filmar tudo. Nessa viagem acho que tirei mais de duzentas fotos

– Bastante, eu não tiro muitas fotos

– É, que os lugares passam tão depressa que as fotos ajudam a lembra-los. Bem, vou indo – um abraço.

– Abraço – até mais!

Entre um aeroporto e outro … / Numa caminhada tranquila …

Saí dali pensando ter assistido a mais uma manifestação de “turismo consumista”, tornado possível pela rapidez e abundância dos modernos meios de transporte e incentivado pela sofreguidão de ver mais e mais coisas sem ter o tempo e a capacidade de vê-las verdadeiramente. Olha-se e não vê-se. Quando viajo, passo e repasso pelos mesmos lugares até conhecer-lhe os detalhes, e cada vez que repasso vejo coisas novas. Frequento o mesmo restaurante (se for bom, é claro), o mesmo trecho de praia e nos fins de tarde o mesmo café; tudo se torna familiar, lugares e pessoas, como se eu tivesse nascido ali; não preciso de fotos. Desse modo os lugares do mundo que visito e que me agradam tornam-se minhas casas, e sabemos que o melhor lugar do mundo é sempre nossa casa, esteja ela onde estiver.

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