Por que ler o já lido? – meu caso com Quarup

Releituras podem redimensionar um livro ou filme para mais ou para menos. Reler Quarup – cuja trama é aqui resumida –  é notar algumas imperfeições, mas principalmente maravilhar-se com a capacidade de recriação do espírito de uma época da nossa História e de suas gentes. É um dos grandes romances brasileiros do século XX.

Reler um livro ou assistir novamente um filme traz surpresas. Quando muito ligados a valores sociais, comportamentos e preocupações de determinada época histórica esses meios de expressão perdem parte de seu apelo – envelhecem. É o caso dos filmes de Antonioni – o pai da tal incomunicabilidade (hoje o problema da comunicação é excesso combinado com má qualidade – ver internet e WhatsApp), de Fellini – fantástico, mas seus filmes não são parecidos demais uns aos outros? E os livros semiesotéricos – libertadores como eram chamados – Carlos Castanheda, Herman Hesse e tantos outros? Não tenho dados, mas meu sentimento é que filmes e livros desse tipo são hoje pouco revistos ou relidos.

Minha experiência em releituras é bastante extensa; nesses dias terminei Quarup, de Antônio Callado e não tenho dúvidas que esse é seu livro maior. Minha primeira leitura foi quase contemporânea à escrita, esta em1967. Foi uma identificação total com trama e personagens, que embora romanceados seguiam eventos e pessoas reais daquela época. 

A espinha dorsal de Quarup é relativamente simples: o personagem principal é um jovem padre – Nando, cujo sonho é ir ao Xingu catequisar os índios, e isso apesar de seu pavor dos corpos nus das índias! Esse medo, que disfarçava sua atração, o leva a abandonar a batina quando chega ao Xingu; tanto por ter perdido completamente o medo das índias, como por perceber que o indígena não necessitava de rezas e água benta, mas sobrevivência, terra e proteção à sua cultura. Decisivo para essa essa segunda percepção foi conhecer Fontoura, um indianista (certamente um compósito dos irmãos Villas-Boas) partidário do deixar os índios em paz, ao ponto de sonhar com a “Nação Xingu”. Nando volta à “civilização”, e no Rio de Janeiro se junta a um povo estranho: jornalistas, ativistas de esquerda e belas mulheres, todos cheiradores de lança-perfume (atividade ridicularmente inocente se pensarmos nas cocaínas e MD´s de hoje). Esse “período do éter”, pelo menos serviu para conhecer pessoas que o educaram politicamente, e quando acorda desse interlúdio inconcludente, parte para o Nordeste – Recife, Jaboatão, e engenhos da área –  onde dedica-se à alfabetização e politização dos camponeses. Nando trabalha junto com Francisca e Levindo e continua silenciosamente apaixonado por ela, que porém é ligada a Levindo (que lembra a figura de Francisco Julião, líder das “Ligas Camponesas”). Nando conhecia ambos desde seus tempos de padre em Olinda, quando observava Francisca registrando em desenhos a beleza dos azulejos do claustro do convento. Levindo já era agitador político, defendendo camponeses em invasão de terras.

Jaboatão dos Guararapes. Um dos locais das atividades “subversivas” de Francisca, Nando e Levindo

O golpe de 1964 atingiu o Nordeste de modo particularmente violento, já que era ali que políticas sociais e agitação libertária se faziam sentir mais acentuadamente, Nando foi preso e torturado, mais psicológica do que fisicamente; Levindo foi morto pela repressão e Francisca se auto exila na Europa.

Uma vez solto Nando continua sob vigilância, abstém-se de atividades políticas, vai viver no Recife em uma casinha na praia de Boa Viagem e inicia a terceira fase de sua vida: o hedonismo e o sexo. Dedica-se à conquista de mulheres e ao ensino desta arte a pescadores e camponeses, seus amigos. Vive seus dias de prazer e resiste aos chamados de antigos companheiros da luta política para que saia dessa apatia e se junte a eles.

Um dia, aproximando-se os dez anos da morte de Levindo – cuja memória ocupa todo o ser de Francisca, uma barreira maior que o Atlântico, interposta entre ela e Nando – este tem uma ideia: um jantar para homenagear o amigo! Um grande jantar para o qual convidará suas amigas – prostitutas incluídas – seus amigos pescadores, os noctívagos e quem mais quiser. A preparação é quase um Quarup: peixes e mariscos, frutas de todo o tipo, doces, (é fabulosa a lista de pratos nordestinos que Callado nomeia em página e meia) bebidas e licores. Mas estamos em plena repressão, o governador tinha sido deposto e preso e os antigos companheiros de Nando insistiam para que desistisse do jantar. No mesmo dia estava prevista a Marcha da família com Deus pela liberdade cujo itinerário incluía a orla de Boa Viagem.

Mas o jantar aconteceu, e bem no meio dele a Marcha passa como um furacão pela casinha do Nando: seus companheiros são agredidos e dispersos, enquanto policiais se encarniçavam sobre Nando, deixando-o quase morto.

Trazido de volta à vida, Nando é outro – sua parêntesis hedonista se fecha e resolve seguir seus antigos companheiros de lutas. Sobre ele irá sempre pairar a ausência de Francisca. 

Essa a espinha dorsal de Quarup. Como costelas, várias sub-histórias partem dali: por exemplo, as aventuras do grupo de indianistas do Xingu a procurar e estabelecer o centro geográfico do Brasil; pinturas misteriosas nas paredes de uma caverna no convento de Olinda onde Nando morava, que o fim do livro revela serem cenas sensuais da mãe de Jesus pintadas por um padre que lá vivia; O desaparecimento na floresta de Sônia, namorada de um político, sua procura e os encontros com tribos nunca dantes contatadas.

O marco do centro geográfico do Brasil, Na vida real foi colocado por uma expedição liderada pelos irmãos Villas-Boas, a pedido do Marechal Rondon

Lido pela segunda vez, pecadinhos que passavam desapercebidos há quase sessenta anos emergem aqui e ali. Assim, os diálogos são algo forçados – não se fala assim todos os dias; forçadas são certas situações – não se entende o que Francisca foi fazer no Xingu e na expedição ao centro geográfico; a saga do desaparecimento de Sônia é totalmente dispensável; a quantidade de mulheres conquistadas por Nando na praia de Boa Viagem e casas de raparigas é impressionante. Por fim, as pinturas erótico-religiosas da caverna do convento, carregadas de potenciais significados, são mencionadas apenas de passagem.

Mas esses são probleminhas; para mim Quarup é um dos melhores romances brasileiros do século XX; seus personagens parecem vivos e a recriação do espírito de uma época é perfeita. Basta isso para inocenta-lo dos tropeços de lógica e de alguns (poucos) penduricalhos nos quais se enreda.  

O final de Quarup coroa a grandiosidade do livro: “”Ele e Manuel Tropeiro estão prestes a se juntar à luta armada rural; a guerrilha, enfim. Conversam sobre qual o nome que vão tomar quando na clandestinidade: “Sempre ouvi meu pai falar num tal de Adolfo Meia-Noite, cangaceiro importante – disse Manuel –  E o seu nome qual vai ser? Já pensou?

Já – disse Nando – meu nome vai ser Levindo””.   

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