É mostrado neste post que ideias e comportamentos são mais facilmente absorvidos e fixados na infância. Isso é válido tanto para religião como para o militarismo, o que explica a importância dada à educação infantil tanto por religiosos como por regimes ditatoriais
Penso que as grandes religiões, pelo menos as que prometem algum tipo de vida após a morte – nascem da nossa sensação de solidão e medo do “depois”. Esse sentimento pode ser experimentado em qualquer momento da vida, mas aumenta em frequência e duração a partir da sua segunda metade com o desaparecimento de amigos e parentes e a irreversível perda de importância do indivíduo na pouca sociedade que lhe resta. É então que como num gráfico X contra Y, a importância da religião – que antes seguia uma inflexão descendente com o tempo – passa a subir e readquirir importância.
Se tomarmos a religião que nos é mais próxima, o Catolicismo, salta aos olhos sua enorme dimensão como Instituição. Não é preciso ir a Roma ou Jerusalém ou Cracovia para surpreender-se com a quantidade, majestade e riqueza das igrejas, refletindo o poder da instituição: Igreja Católica Romana. O mesmo ocorre com suas ramificações – a Igreja Anglicana – com suas igrejas góticas – Winchester, York, Salisbury e tantas outras – que com sua verticalidade parecem aproximar os homens ao Deus em que acreditam.

Abadia de Westminster, Londres
A atenção que estou dando para a enorme dimensão da Igreja Católica/Cristã como Instituição é totalmente desprovida de juízo de valor – sei muito bem que se deixada a si mesma não teria sobrevivido e o fez com sobra; basta lembrar os muitos séculos em que exerceu poder temporal, além do espiritual e do poderio econômico atual, nem sempre bem direcionado.
E como as pessoas continuam ligadas, embora fracamente, à religião durante a fase descendente da curva ‘importância da religião versus tempo’? A resposta está na força dos rituais, das datas comemorativas, do sentimento de proteção que se extrai das mesmas. E quando esse “pacote” protetor é absorvido? Na infância e primeira adolescência e suas cerimônias religiosas, como a primeira comunhão, a crisma, cursos de catecismo dados por padres sorridentes e freiras boazinhas, interior de igrejas iluminadas rescendendo a incenso e estímulos do tipo. A tradição católica romana ainda conta com uma figura semelhante à nossa mãe terrena, na figura da mãe de Jesus a interceder por nós junto ao seu filho, tal qual ocorre nas famílias com a mãe boazinha e o pai severo. Também nessa idade nos disseram que cada um de nós tem um anjo da guarda que olha por nós e nos protege dos perigos. Mesmo passados muitos e muitos anos a lembrança do anjo protetor consegue nos remeter à sensação de tranquilidade e segurança dos anos infantis, ainda que dure poucos segundos.

O anjo da guarda
Algumas data importantes perderam a força; é o caso do Natal engolido pelo consumismo e dominado pela figura de um Papai Noel, que se tornou tão presente que nem percebemos o ridículo de vestir capote invernal em nosso dezembro. Toda a carga de rituais, datas comemorativas, figuras bondosas e protetoras de nossa fragilidade, figuras de santos extáticos sobre um fundo de raios de sol, etc. nos é impressa desde a infância. Com o tempo permanece simplesmente como um conjunto de lendas e recordações que, podem se transformar em sentimento religioso puro e conexão com o divino. Ou, em outros casos a aura poética e evocativa de tempos felizes e inocentes degrada para uma religião ritualística, fechada em si mesma, que se limita a seguir a liturgia e os sacramentos, fria, de espiritualidade zero, preconceituosa e carente de empatia pelos outros. Condição esta bem menos desejável dos que, embora ateus, prezam sensibilidade, ética, generosidade, respeito e amor aos outros.
Esses dois aspectos da religião são como a bifurcação de um grande rio, cuja nascente está na infância, idade em que as impressões recebidas internalizam-se e permanecem. Por isso não é raro que alguém que seja ateu, em certas circunstâncias lembre com carinho de imagens e rituais e sinta-se acompanhado ou protegido por eles: Jesus menino no Natal, o anjo da guarda, o vulto (bondoso, ou assim lhe parecia) de algum religioso ou religiosa que conheceu criança. Não é por acaso que as escolas de matriz religioso tentam (muitas vezes conseguem) criar uma aura saudosista que permanece na vida adulta.
É interessante que o mesmo processo – o uso da infância para fixar um modo de vida, uma visão de mundo – pode e foi utilizado com objetivos completamente opostos. Retrocedendo por exatamente cem anos chegamos à Italia Fascista; o cuidado que o Regime dedicava à educação escolar e esportiva, com o objetivo de difundir seus ideais na sociedade começando com os jovens, era extremo. Assim, meninos com seis – oito anos de idade, uniformizados e portanto um fuzil de madeira, se exercitavam na escola e desfilavam nas datas nacionais; eram ‘os filhos da loba”. Não entendiam nada do que estava acontecendo e intenso era o trabalho de instrutores militares para conseguir mantê-los em confusa formação. Dos oito aos quatorze eram enquadrados como “Balilla”; esportes, desfiles, acampamentos ao ar livre, exercícios de tiro com armas reais e balas de festim – essas eram atividades que visavam a construção de uma geração patriótica, militarista e corajosa, cuja formação ideológica fascista continuava até a universidade.

Filhos da loba perfilados em ordem unida; mais velhos, os Balilla já desfilam com armas ao ombro
A educação escolar é fundamental para as futuras gerações. A plasticidade das mentes infantil e juvenil encerra grandes oportunidades e grandes perigos. Ideologias negativas podem afastar o bem e educar para o mal. Cem anos se passaram das tristes e ridículas cenas mostradas nas fotos acima, mas podem voltar e já há indícios disso.

