Atenção todos: é meu aniversário!

São discutidas as motivações de festejar o aniversário de nascimento. O que é natural e alegre na infância e maturidade pode perder o sentido em idade avançada. É mostrada a lógica e as razões daqueles que não sentem necessidade de festejar seu aniversário.  

Durante o ano existe um monte de datas comemorativas, religiosas e nacionais: nascimento de Jesus, morte de Jesus, santos protetores, patronos disso e daquilo, Independência e República, Tiradentes, dia do trabalho e mais os aniversários de cidades; 25 de janeiro – São Paulo, 4 de novembro – São Carlos, e assim por diante por todas as cidades. Acho que os feriados oficiais são dezenove; assim, uma conta rápida que inclui sábados, domingos e feriados (sem contar fins de semana estendidos – que uns aproveitam e outros não), nos diz que descansamos em pouco mais de 30% dos 365 dias do ano.

E desses 365 dias há um, não contado acima, que é o mais importante para (quase) cada um de nós: o dia do aniversário.

Esta efeméride – como se dizia antigamente – toma diferentes significados em diferentes épocas da vida e para diferentes tipos de pessoas. Comecemos pelo começo: aniversário de crianças – nada mais natural do que aniversários de crianças, festas sempre alegres, importantes para a socialização dos pequenos, todas iguais umas às outras – nos primeiros anos, sem que os pequenos percebam, pais protetores sopram escondidos as velinhas, mas com o passar do tempo, os pulmões dos rebentos tornam-se mais fortes – inicia ali sua independência e os pais começam sua longa viagem rumo à redundância.

Aniversário de crianças – simplesmente alegria

Aniversários de adultos também giram em torno de uma base comum: bolo, velinhas, convidados, família e amigos. Os confortavelmente ricos põem na mesa seus pratos “bons” com borda dourada e belos desenhos, copos de cristal e toalha das grandes ocasiões; os muito ricos colocam os pratos copos e toalha de todos os dias; porcelana inglesa e talheres de prata. Na casa do pobre vai à mesa o bolo feito pela avó, ou na falta desta o feito pela vizinha, que os pobres são solidários na escassez.

Indivíduos e seu coletivo – culturas – diferem com relação ao tratamento do dia do aniversário. Há os que o esperam ansiosamente, como uma festa que o mundo inteiro lhes deve; são os que dão muita importância a si mesmos, mais ainda quando refletida pelos outros pois sem validação alheia são incapazes de encontrar sozinhas seu senso de valor. E é por isso que convidam muita gente: para mostrar que tem muitos amigos que gostam deles e os admiram; os muito ricos convidam antigos amigos e colegas para que vejam seu sucesso, sua casa, seus carros na garage, sua bela esposa, seus inteligentes filhos.    

Mas também há os que ao aniversário não dão importância, isso em qualquer idade e menos ainda ao entrar na velhice. Não o ignoram completamente, mas o guardam para si, evitam o barulho de festas e felicitações vazias, respeitam sua própria paz. São pessoas que de um modo ou de outro conseguiram suficiente independência emocional para que a companhia de si mesmos lhe seja suficiente, e passam em silêncio esta data sem dramas, sem inúteis sentimento de perda, ou sorumbáticas meditações; apenas aproveitam a tranquilidade daquelas 24 horas para encontrar a si com mais clareza.

Há outras motivações menos cerebrais/filosóficas que se originam na infância, a carimbadora do carácter e dos comportamentos futuros. Será a lembrança de aniversários que não foram festejados ou o desapontamento de presentes esperados que não vieram? Melhor proteger-se da repetição de sensações negativas vindas do passado. Emocionalmente essa é a pior motivação de não festejar seu próprio aniversário, mas nas circunstâncias é a mais racional.

E chegamos à estação da vida, digamos ultra-madura. Para minha surpresa são essas as festas de aniversário mais concorridas e ruidosas. Amigos, poucos é verdade – é a fase da vida em que vários já partiram – familiares, esses presentes em massa! – netos, bisnetos se houver, inúmeros sobrinhos e filhos de sobrinhos, genros e noras, um monte de caras conhecidas e desconhecidas, todos a festejar os anos xxxenta, ou xxxenta ou xxxventa (cem já é difícil, mas acontece) do grande homem ou grande mulher. Claro que apenas em casas de ricos chega-se aos anos “enta” – boa vida, boa alimentação, eminente conta bancária, – esses são detalhes que ajudam a alongar a vida.

Aniversário de idosos – sempre o mais festejado

O que eu não consigo entender é o que essas pessoas, estão festejando. Não há dúvida que aniversários são a ocasião perfeita para encontro de amigos e familiares, muitos dos quais se veem apenas nessas festas. Aliás, pela alegria que demonstram nesses encontros – abraços apertados, beijos e declarações emocionadas -, não se entende como puderam manter-se longe durante o resto do ano.

E o aniversariante? – regalando-se no prazer da autocelebração, de ser o centro das atenções, apertos de mão, batidinhas nas costas e discursinhos algo etílicos e cheios de emoção ensaiada, não se dá conta de que seu aniversário pode ser contado ao revés.

Esquema da inexorável caminhada do dia do aniversário

Melhor do que palavras, a figura acima é bem explicativa do que está acontecendo; assim, a seta azul mostra a distância entre o dia que estão festejando – o dia de seu nascimento, o marco zero – e a dia do aniversário. Ao mesmo tempo a seta cinza, cor de chumbo, marca os anos que restam até alcançar o “final de tudo”, que na impossibilidade de saber quando será alcançado é identificado aqui por por um ponto de interrogação. Com o tempo o aniversário corre para a direita, uma seta se alonga, a outra se encurta, e a razão dos comprimentos seta azul/seta cinza aumenta. E assim, para aquele que tem consciência da velocidade com que essa razão aumenta, melhor o silêncio do que a festa.  

Mas quando chega o final de um dia de aniversário, mesmo aquele que o ignorou totalmente acaba por senti-lo como algo seu que está fugindo. Com pesar se dá conta que esse dia que foi seu, só vai se repetir dali a um ano, e isso se se repetir, que o futuro é incognoscível. 

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