EI! – ainda estamos aqui!

Existem objetos que apenas com sua presença evocam pessoas, épocas e lugares. Os protagonistas deste post são dois livros que atravessaram quase quatro séculos Os acontecimentos históricos que se desenrolaram durante a existência desses dois livros são mencionados, e é revivida a emoção de tê-los em mãos nos dias de hoje.

Certos livros conseguem evocar tempos, lugares e pessoas distantes, mesmo sem serem lidos. São livros antigos dos quais possuo alguns, os mais interessantes sendo: Telemaque de Fenelon e os dois volumes do Adone (Adonis) de Giambattista Marini. Não li nenhum, mas os manuseio respeitosamente de vez em quando. Telemaque é filho de Ulisses e conta suas aventuras quando sai pelo mundo à procura do pai. Editado em 1757, percebe-se que foi reencadernado em algum ponto de seus 269 anos de vida, o que não aconteceu com o Adone, ainda em estado original, bastante bom para o volume I mas nem tanto para o II. Sua primeira edição é de 1623, a minha é de 1680, tem 1318 páginas e foi impressa em Amsterdam, terra da liberdade de pensamento na época. Parece que a obra é o mais longo poema em língua italiana – três vezes maior que a bem grande Divina Comédia. Não forma uma narrativa coerente, sendo composta por uma sucessão de madrigais. São 5123 oitavas (blocos com oito linhas) portanto são 5123 x 8 = 40984 versos rimados a maioria com o seguinte esquema rítmico: ABABABCC. Com tudo isso não surpreende a notícia que Marini tenha levado a vida inteira para escreve-lo. Essa e outras obras lhe trouxeram muitas dores de cabeça: problemas com a Inquisição e acusações de plágio, essas especificas para o Adone.

O Adone e oTelemaque, 1680 e 1757, respectivamente, agora salvos em minha casa.

O Adone viu passar doze gerações, e o Telemaque nove. Quantas os leram? Ambos foram certamente manuseados a partir do final dos séculos XVII e XVIII, este o chamado “Século das Luzes”. Eram tempos em que o respeito intelectual, moral e comportamental dados à religião, à escolástica e aos mestres antigos dera lugar a liberdade de pensamento e fome de conhecimento, desamarradas que foram pelas descobertas científicas das Luzes. Lia-se muito naqueles tempos pois o número de alfabetizados aumentou sobremaneira; mesmo a classe trabalhadora consumia panfletos, livros baratos, jornais e também fazia muito uso de livros emprestados e bibliotecas comunitárias; lia-se em grupo, em alta voz e nascia então uma intensa procura por romances de todo tipo. Na outra extremidade social, burgueses e nobres iniciavam a construir vastas bibliotecas particulares em suas moradas. O Adone, em sua encadernação luxuosa (reparem que o lombo dos dois volumes foi feito à mão) deve ter passado muito anos em estantes de luxuosas bibliotecas, talvez no escritório do dono da casa ou na sala onde os homens se reuniam para um licor ou charuto após o jantar. Vida similar deve ter tido o Telemaque; mesmo que reencadernado bem mais tarde do que 1757, o interior é original, uma edição luxuosa, fontes elegantes com a letra s escrita como f e ilustrações muito bem cuidadas.

Mas é emocionante tê-los em mãos: o Adone, por exemplo, já existia quando Newton publicava seus dois tratados sobre a luz e o famoso Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Estava ali quando da publicação das três Leis de Newton em 1687; novinho em folha então, e podemos imaginar seu primeiro dono, com o volume I nas mãos interrompendo a leitura para comentar com seus amigos a revolução de ideias que estava acontecendo na Europa. A segunda geração de donos – não sei se da mesma família do primeiro – começou a sentir o grande frio de 1709, a geada que trouxe os termômetros a níveis que não se viam há 500 anos e que durou até 1750, o auge da pequena Idade do Gelo. Logo em seguida, na família do proprietário do Adone chega a notícia do terremoto de Lisboa. Quase certamente essa família vivia na Italia, bem longe, e este meu livro nem chegou a sentir as vibrações do terremoto, nem foi molhado pelo tsunami que se seguiu ou chamuscado pelo incêndio que concluiu a destruição da cidade.

E assim, Adone e Telemaque seguiam atravessando os anos. Nos salões se ouvia Bach, Haydn, Handel e o jovem Mozart, mas em 1789 esses sons foram abafados pelos tiros de canhão da Revolução Francesa. Penso que o Adone estava são e salvo na Itália, mas talvez o Telemaque morasse na França e acabou por ser jogado da janela do palácio de algum nobre junto com o resto da mobília (e o nobre também), daí necessitar da nova encadernação.

De Delacroix, o famoso quadro-símbolo da Revolução Francesa: “A liberdade conduzindo o povo”

Mas pode muito bem ser que ambos estivessem seguros na Italia, enquanto uns 30 anos antes, na Inglaterra iniciava a Revolução Industrial, que fez o mundo evoluir de uma economia agrária para uma dominada pela Indústria e pela máquina a vapor. Pouco mais de dez anos depois da entrada em existência  deste meu Telemaque nasce Napoleão, o construtor do Império Francês, o conquistador de meia Europa, que porém teve a má ideia de atacar a Russia em 1812. Nisso foi imitado 129 anos depois por um indivíduo com um bigodinho ridículo, igualmente derrotado às portas de Moscou (e em muitos outros lugares também). Mais um pouco e meus livros entram no movimentadíssimo Século XIX: Charles Darwin nos apresenta os macacos, nossos nobres ancestrais, Carl Marx nos faz saber que o dinheiro tudo controla, para o bem e para o mal e Freud nos faz enrubescer com suas maliciosas associações ao ponto de um amigo lhe dizer “Sigismundo – afinal um charuto pode muito bem ser apenas um charuto”.   

Vésperas do século XX: meus Adone e Telemaque estão em algum lugar, talvez já em casa de meus avós ou bisavós, meio esquecidos frente às novidades literárias que se sucedem: romantismo, realismo, simbolismo e outros ismos. Dali a pouco carruagens sem cavalos são vistas pelas ruas e logo depois um homem montado em asas, voa algumas centenas de metros apenas, mas voa. É o início do século XX, com São Paulo chegando aos 240 mil habitantes e o início de um período de ilusória paz no mundo, a Belle Epòque. Logo depois Einstein subverte o tempo e o espaço e não passam dez anos para a melhor juventude europeia encontrar o fim dos tempos no inferno de chumbo e fogo da Primeira Guerra Mundial. Alguns poucos e ilusórios anos de paz – os “loucos anos ´20” – seguidos pela Segunda Guerra Mundial, que junto com a outra fatura de 65 a 100 milhões de mortos. 

Adone e Telemaque que passaram ilesos por tudo isso estão aqui do meu lado; é emocionante vê-los e tocá-los, no entanto são objetos, matéria apenas. Mas existe um ser vivo que acompanha a mesma linha do tempo desde os séculos XVII ou XVIII; esse é o Tubarão da Groenlândia – expectativa de vida de cerca de 400 anos.  

O tubarão da Groenlândia vagando no fundo do mar

Mede quase sete metros, é geralmente cego, e desloca-se lentamente na escuridão e frio de profundidades entre 1000 e 1200 metros. Esse da foto, provavelmente estava vivo quando Giambattisti Marini escrevia seu Adone e Fenelon sonhava em escrever um romance sobre Telemaque, filho de Ulisses.   

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