Três contos que cabem na palma da mão

Na produção literária de Yasunari Kawabata, os “Contos que cabem na palma da mão” tem lugar especial. São 146 (ou 148) histórias curtas e curtíssimas, que remetem a fatos do dia a dia e recriam eventos cuja delicadeza os faria parecer desimportantes ao leitor carente de sensibilidade. Correspondem – em prosa – à concisão e expressividade dos haicai.

Aqui temos três contos que cabem na palma da mão: dois meus, o terceiro de Kawabata.

Cafeteria

Escolheu um lugar frente aos grandes janelões da cafeteria, ora inundada pela luz das onze horas de um dia de muito sol. Pediu um cappuccino e um croissant. Pedido elegante, pensou, principalmente o croissant – a mesma palavra repetida um milhão de vezes em Paris onde ele estivera por duas vezes e construíra um pequeno monumento à cidade dentro de si. O cappuccino confundia-se com o vozerio de uma rua de Roma e a poeira que emanava de ruínas em secular desfazimento.

Uma moça de ar triste lhe trouxe a bandeja – havia mais três, igualmente com ar triste, e ele pensou que este lugar não devia pagar bem as empregadas. Era como se a tabela salarial dos lugares em que entrava – lojas, restaurantes, bares – estivesse estampada na expressão dos funcionários.

O lugar estava quase deserto – um casal no fundo milagrosamente conversando invés de consultar seus iPhone. Uma moça, de costas, parecia alternar com os olhos a tela do lap-top, a do celular e a rua, mas de vez em quando escrevia algumas palavras. Uma terceira, de frente para mim, olha à sua direita e pensa em algo.

Lá fora um senhor bem vestido atravessava a rua com ar circunspecto. Talvez tivesse muito dinheiro no bolso e temia o encontro com o sem-teto que sem preocupações desse tipo avançava em sua calçada original. Uma motocicleta passou em velocidade inimaginável e lhe lembrou o fim de tarde em que viu o céu negro de tempestade ser riscado pelo veloz voo de um pássaro buscando o ninho.

Do outro lado da rua uma loja de brinquedos. De onde estava só distinguia as cores de bonecas, carrinhos, caixas de jogos… tudo isso tinha ficado no passado. Na calçada, bem rente aos janelões da cafeteria uma moça de rosto afilado passava apressada, mas com tempo de lançar um olhar que atravessou o vidro do janelão, cruzando o seu por um brevíssimo instante.  

—————————————

Encontro entre livros

Marcos, meia idade, de poucas palavras. Dono de uma pequena livraria, mal casado e desencantado. Naquela tarde, a ponto de fechar o Caixa –  o telefone toca.

– Olá

– Ah, olá, sou eu, lembra do livro de arte, Italia, etc? Semana passada? – Quero comprar um livro sobre gatos, vou ganhar um – daqui a pouco tô chegando aí.

…………….

– Ah, mas que pontualidade.

– Sou sempre pontual.

– Então quer um livro que fale de gatos?

– Sim, como cria, doenças, o que come, como treina.

– Gatos não são treináveis; são livres como o ar – mora numa casa?

– Não – apartamento, mas andar térreo e reparei que posso deixar uma fresta de janela aberta, pra ele entrar e sair, sabe?

– Cuidado, que gatos saem por aí; se for macho vai caçar gatas e voltar todo machucado de brigas com os rivais, e se for fêmea pior, volta cheia de gatinhos; recomendo castrar.

– Ah, coitados, especialmente se for macho!

E riu, Marcos também. Surgiu um silêncio e ele não achou nada melhor que ir procurar o tal livro sobre gatos. No caminho de volta pensou como seria se a convidasse para… para isso mesmo… Mas ele não tinha o menor jeito para iniciativas desse tipo – mas e se …

– Sim, eu nunca castraria um gato, lhe tiraria a maior parte da vida

– Dá tanto valor assim ao sexo, …?

– Sim, muito – e percebo que não lembra meu nome.  

– Mel

– Ah! – parabéns, então lembra de mim.

– Bem, difícil esquecer, você é – como dizer – bastante saliente, no bom sentido é claro.

– Saliente como?

– A figura toda.

Pronto – pensou Marcos – agora não tem volta, o que devo fazer? Acho que vou convidá-la para… para o que? – jantar? – mas ainda é cedo – tomar alguma coisa?

– Então Mel, aqui está o livro, e quero que o leve como presente; é um bônus por gostar de gatos, eu também gosto muito.             

Mel pegou o livro e ficou perambulando pelas estantes. Pegava um livro, depois outro e pelo jeito indeciso, a Marcos ficou claro que a moça tinha muita pouca familiaridade com esses objetos. E daí? O que tem cultura a ver com isso – com as pessoas? – com a vida?

Por fim foram saindo e ela ainda o ajudou a fechar a porta de aço, com muita exibição de pernas.

– Bem, obrigado por vir, e – posso leva-la a algum lugar?

– Meu carro tá logo ali.

– Vamos tomar algo antes de ir? – tem um lugar tranquilo na rua de cima.

– Sim pode ser, mas você não percebeu?

– ………..?

– Eu sou garota de programa.

———————————————

Os canários

Senhora

          Devo quebrar minha promessa e lhe escrever novamente.

          Não posso mais manter os canários que o ano passado recebi da senhora. Minha esposa sempre os cuidou. Minha única função era olhá-los – e pensar em si quando os via.

Foi a senhora quem disse, não foi? << o senhor tem uma espoa, eu tenho um marido. Vamos parar de nos vermos. Se ao menos o senhor não tivesse uma esposa. Eu estou lhe dando esses canários para que lembre de mim. Olhe-os. Eles agora são um casal, mas o lojista simplesmente pegou ao acaso um macho e uma fêmea e os colocou em uma gaiola. Os canários não tiveram nada a ver com isso. De qualquer modo lembre de mim com esses pássaros. Talvez seja estranho dar criaturas vivas como memento, mas nossas memórias, essas estão vivas. E quando chegar o tempo delas morrerem, deixemos que isso aconteça>>.

Agora os canários estão perto da morte. Aquela que cuidava deles morreu. Um pintor como eu, negligente e pobre como sou, não pode cuidar de tão frágeis pássaros. Falando claramente, minha esposa cuidava dos pássaros mas agora está morta. Desde sua partida fico imaginando se os pássaros não vão morrer também. Assim, senhora, terá sido a morte de minha esposa que me trouxe memórias suas?

          Pensei em libertar os canários, mas desde a morte de minha esposa suas asas parecem ter-se enfraquecido. Além disso esses pássaros não conhecem o céu. O casal não tem companheiros na cidade ou nos campos vizinhos com os quais possam se acomodar. E se um deles partir sozinho, iriam morrer um longe do outro. Mas a senhora me disse que o homem da loja de animais apenas apanhou ao acaso um macho e uma fêmea e os colocou em uma gaiola. E a propósito dele, eu não quero devolver-lhe os pássaros pois foi a senhora quem me os deu. E também não quero devolve-los a si por que foi minha esposa quem cuidou deles. Além disso esses pássaros – dos quais imagino que provavelmente se tenha esquecido – lhe dariam muito trabalho.

Repetindo: é por que minha esposa estava aqui que eles sobreviveram até agora – atuando como memória vossa. Por isso, senhora, eu quero que os canários a sigam na morte. Mantendo viva vossa memória não foi a única coisa que minha esposa fez. Como consegui amar uma mulher como a senhora? Terá sido por que minha esposa estava comigo? ela me fez esquecer todas as dores de minha vida. Ela evitou ver o outro lado de minha vida. Se ela não tivesse feito assim eu seguramente teria desviado ou abaixado meus olhos ante uma mulher como vós.

Senhora – está tudo bem para vós se eu matar os canários e os enterre junto ao túmulo de minha esposa?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *