Saindo da estação e entrando na avenida, por um trecho o pinheiro sobre a colina não mais era visto, escondido pelo teto das casas. Voltava a aparecer ao dobrar a esquina do vendedor de frutas. Dali a rua continuava em linha reta e assim pelos sete ou oito minutos necessários para chegar até a casa de Miyagawa a árvore mantinha-se constantemente em vista.
Era visível também do mar. Kayo, a filha de Miyagawa, a primeira vez que saiu em um barco com o noivo tinha depois contado a seu pai que achando-se tão afastados da costa que a pequena colina atrás da casa parecia ainda menor, o fato de ainda poder distinguir o pinheiro a fez chorar de emoção. Disso Miyagawa lembrou durante a festa de casamento da filha. O esposo não era mais o noivo do barco, mas outro jovem. Perguntar-lhe agora naquela circunstância o porquê a vista do pinheiro a tivesse comovido até as lágrimas lhe pareceu inoportuno; preferiu deixar de lado a pergunta.
Não tinha ainda previsto que aquele pinheiro pudesse morrer enquanto ele ainda vivia. Sim, também não tinha previsto que teria ido morar naquela casa dominada pela colina com o pinheiro, mas algo lhe dizia que aquela árvore, ali há uma centena de anos esperava sua vinda. Não podia morrer pois lhe fora destinada.
Também não poderia dizer se a árvore tinha começado a assumir aquele tom amarelo amarronzado a partir do topo, do centro ou da base. Tentou perguntar em casa, mas cada um tinha sua opinião a respeito.
Mesmo quando descobriu que em um ponto as agulhas tinham amarelado, não imaginou que a vida do pinheiro estivesse em perigo. Miyagawa não tinha um jardineiro de confiança, havia sido o de um amigo quem anunciou-lhe com total indiferença que o pinheiro estava morrendo. Àquela altura o processo de secagem tinha se estendido irremediavelmente por toda a árvore. O pinheiro está tomado por parasitas – declarou o homem. Se as agulhas tinham começado a amarelar era sinal que não mais poderia se salvar. Miyagawa pediu que ele experimentasse algum tratamento, mas o outro lhe disse que seria inútil.
Teve que se resignar, mas agora cada vez que o via, da casa, do jardim, das ruas da cidade, dos trilhos do trem, o pinheiro lhe provocava um aperto no coração. Longos meses se passaram. Sobre a árvore mais nada de verde restava, mas as secas agulhas amarelas não queriam cair.
E veio um momento em que aquela árvore seca começou a lhe aparecer como um sinal de desventura, a imagem de sua miséria. Não mais queria vê-la, mas estava continuamente diante de si. Decidiu que devia ser abatida o quanto antes, não só para eliminá-la de sua vida, mas também para lhe celebrar o funeral.
No entanto passaram-se os anos sem que nada fosse feito. E enquanto isso, a pouco a pouco as agulhas secas caíram; os galhos, começando com os menores se quebraram, e mesmo alguns dos mais robustos se romperam.
Miyagawa, cada vez mais frequentemente se esquecia da presença daquela árvore desprovida de folhagem. Até se esqueceu de cortá-la. A neve pousava sobre os secos espinhos vestindo-os com formas novas. E o velho pinheiro, envolto em um cobertor branco, ao mesmo tempo parecia mais frio e mais quente.

Flor de inverno (Kaii Higashiyama)
E depois sobre o pinheiro apareceu o falcão. Obviamente o pássaro pôde pousar em seu topo, pois a árvore se salvara do machado.
A evitar seu corte foi não apenas a falta de caminhos que permitissem alcançar o cume da elevação, mas também uma certa hesitação por parte de Miyagawa. Ele mesmo não sabia bem o que o tinha impedido. Assim, o pinheiro ainda estava em cima da colina e sobre ele estava empoleirado um falcão.
O falcão maninha-se imóvel. Miyagawa o olhava suspendendo a respiração, como que penetrado pela potencia que emitia. Parecia-lhe que a força do animal se transmitia também à árvore seca.
Pensou em chamar sua mulher para lhe mostrar. Naquele momento, na casa somente ela estava. Mas seguramente, ouvindo sua voz o pássaro se assustaria e iria voar. E para se fazer ouvir até dentro da casa teria que gritar.
Aquele pássaro, surgido assim tão de repente parecia imóvel como uma estátua, as garras enterradas na madeira seca.
Mas estava vivo, e cedo ou tarde voaria, abandonando o seco pinheiro. E este não será nada mais do que um tronco morto onde uma vez desceu um falcão. E o pássaro, agora que Miyagawa o tinha visto, ficaria sempre dentro dele.
O que tinha vindo dizer-lhe? Se sua aparição representava um auspicioso pressagio, de que natureza irá ser a sorte, a felicidade que estava para lhe acontecer? Não consistia talvez no fato de ter visto o falcão?
Miyagawa tinha visto o pássaro na primavera de dois anos atrás. No topo da colina atrás de sua casa o seco pinheiro alteava-se como sempre. O falcão não mais voltara. Ou se voltou, ele não o tinha visto.
No entanto, chegara a pensar que também o falcão estivesse dentro de si. E já que dificilmente alguém iria acreditar se dissesse que um falcão apareceu, não só na cidade mas em seu próprio jardim, ele decidiu não fazer palavra disso com ninguém.
Este conto de Kawabata deve ser entendido como uma metáfora da velhice, representada pelo pinheiro que perde suas agulhas e ramos. A vinda do falcão pode significar o despertar em Miyagawa da sensação de estar vivo e ainda válido (por duas vezes ele se diz que o falcão está dentro dele / a resistência do pinheiro à tempestade), sentimentos ativados pela força que o falcão transmite à árvore morta (que é ele, Miyagawa). Indicações esparsas falam de isolamento e incomunicabilidade (o pinheiro está só sobre a colina – ele não chama a esposa – não fala a ninguém da chegada do falcão). Uma constante da literatura japonesa é a identificação do homem com a natureza, aqui retomada várias vezes. O silencio a respeito da vinda do falcão pode ser um aceno à inadequação da linguagem em expressar sentimentos interiores e subjetivos.
Em Kawabata é frequente a referência a tradição Budista, e é aí que o “orientalismo” – tão distante de nossos parâmetros de visão ocidentais- dificulta a interpretação do texto. A cena da noiva, as pétalas soltas, a tentativa de recuperá-las, a “flor de lótus na fogueira”, são exemplos dessa nossa dificuldade. Além do mais, o mundo exterior e interior do autor e do leitor são diferentes, e das intenções de um nascem diferentes interpretações no outro, tão múltiplas quanto suas histórias de vida, seu mundo enfim.

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